domingo, abril 12, 2015

Dia 15/04 ato do trabalhador em defesa do trabalhador.

Que o Congresso Nacional da atual legislatura era um congresso extremamente reacionário já não era novidade. As legendas de aluguel da direita ganharam espaço, houve uma significativa ampliação da “bancada da bala” e “evangélica”, redução dos setores governistas que pontualmente tinham posições progressistas, em questões, principalmente ligadas a direitos humanos.
No entanto, as duas últimas semanas foram um acúmulo de derrotas. A redução da menoridade penal e a aprovação do PL 4330/04. A menoridade penal, PEC 171, é um verdadeiro estelionato eleitoral. Aproveitando a concepção vingativa de política e direito penal que o senso comum tem, a CCJ aprovou a admissibilidade da alteração constitucional. A PEC está sob estudo em uma comissão, que a maioria dos parlamentares é pela redução da menoridade penal e representantes da bancada da bala. Se aprovada a reducação da menoridade penal, além de não solucionar o problema da violência pública ainda trará ônus carcerário que serão suportados pelos estados, não pela União, além de que o Brasil rasgará, na prática, a Convenção Internacional sobre o Direitos das Crianças da ONU, da qual o Brasil é signatário. É um retrocesso histórico nos direitos das crianças e no Direito Penal.
Do outro lado o PL 4330, “regulamenta” as terceirizações. A CLT assegura que a terceirização só poderia ocorrer em situações que não envolvessem área fim da atividade. Os custos com os empregados da atividade fim deveriam ser suportados pelo empregador; essa é a lógica, pelo menos era. Com a aprovação do “projeto as terceirizações” ficaram liberadas as terceirizações da atividade fim, inclusive na Administração Pública. Isso significa que, se a Administração não quiser mais fazer concurso público, ela poderá suportar sua atividade somente com terceirizados, e não haveria nenhum problema. Segundo o presidente da FIESP a produção da indústria não será terceirizada, apenas seus serviços “especializados”. Ou seja, não se demitirá operários, só os engenheiros. Esse projeto vem para trazer imediatamente brusca redução salarial entre os setores especializados.
Assim, em poucas semanas, o Congresso Nacional impôs para o povo brasileiro trabalhador e pobre duas derrotas profundas, uma em sua segurança e outra em seus empregos. Isso posto, o movimento da direita para derrubar o PT e Dilma, perdeu força para a mobilização concreta, nem tanto quanto a menoridade, mais com relação ao emprego, sim. Fica cada vez mais claro que PSDB não é alternativa, é o momento de que disputa em torno de pautas concretas e cotidianas, a defesa do emprego e da juventude e da segurança.

Com isso façamos o dia 15 de abril um grande dia de paralização, com piquetes e mobilizações, e onde possível greves.

quinta-feira, abril 02, 2015

Menoridade Penal; (re) iniciando um debate antigo. (Parte 1)

Está aberto o debate sobre a redução da menoridade penal. A aprovação da PEC 171 pela CCJ, trouxe o debate aberto e franco para a sociedade civil brasileira. E as redes sociais, nos últimos dias opiniões contrarias e a favor se enfrentaram. Até o arremedo de jornalista Rachel Sheherazade  apresentou uma piada de muito mal gosto ao defender 10 pontos para ser a favor da redução da menoridade penal.
Os defensores da redução da menoridade penal apoiam-se nas seguintes teses: 1) A política penal é para punição e vingança por causa do crime cometido. 2) inspirados pela demora do processo penal, e pela lentidão do Judiciário Brasileiro, apontam que a "justiça" seria chegada a partir da punição precoce. 3) Os casos chocantes e bárbaros cometidos por adolescentes para justificar a punição de todos.


O direito e a política penal moderna não admite a vingança como estruturante da punibilidade do apenado. Ou seja, o apenado é uma vida, assim como a que ele, por exemplo, prejudicou. Não se trata de renegar uma vida pela brutalidade com que este tratou sua vitima. Mas a política e o direito penal tem como objetivo a correição do apenado, a "realocação" social por assim dizer. Além da reparação pecuniária da vítima ou de seus herdeiros. 


O processo penal é um processo lento, por assim dizer, inicia-se em uma fase administrativa para posteriormente tornar-se um processo judicial, propriamente dito. A busca do processo penal é a verdade de fato. Pois ao atacar um direito fundamental (direito a liberdade) e não apenas o patrimônio. O patrimônio enquanto direito é "menos importante" que a liberdade. Um dia preso, não volta, o patrimônio pode voltar. Até por isso que o processo penal deve ser mais cauteloso com a busca pela verdade, para não correr o risco de tirar a liberdade de um inocente. Boa parte do problema do judiciário brasileiro é o índice per capita de juízes, por exemplo, segundo o CNJ cada servidor do primeiro grau de jurisdição estadual é de 545 processos por servidor, em 1 ano. No segundo grau é de  230 por servidor. Estima-se que na Justiça Estadual cada juiz de primeiro grau teve 7.407 processos em 2013.

Os casos bárbaros apresentados como justificativas são explorados pela mídia sensacionalista para justificar a flexibilização, onde se discute seletivamente crimes hediondos e de grande comoção. Por exemplo, na lista apresentada pelo arremedo de jornalista não consta o estupro de vulnerável cometido pelo filho do dono da RBS, por exemplo.

Mas discute-se em torno desses casos os efeitos e o caso executado em si. Entretanto não se discute como prevenir? Discute-se a vingança, ai voltamos para para o inicio da discussão, sobre a finalidade do direito e da política penal.

segunda-feira, março 16, 2015

Brasil: manifestação convocada pela direita contra Dilma vence a disputa nas ruas

Protestos em pelo menos 152 municípios do país levaram centenas de milhares às ruas a pedir a saída do governo de Dilma Rousseff e o fim da corrupção. Mobilização ofuscou a jornada de dois dias antes, quando as manifestações pró-Dilma foram muito reduzidas.

Luís Leiria Publicado originalmente em http://www.esquerda.net/artigo/brasil-manifestacao-convocada-pela-direita-contra-dilma-vence-disputa-nas-ruas/36209
Manifestação na avenida Paulista. By Unknow (Agência Brasil) [CC BY 3.0 br (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/deed.en)], via Wikimedia Commons
Manifestação na avenida Paulista. By Unknow (Agência Brasil) [CC BY 3.0 br (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/deed.en)], via Wikimedia Commons
O Brasil passou a semana a discutir dois dias de manifestações: dia 13, os defensores da presidente recém-eleita Dilma Rousseff sairiam à rua. Dia 15, seria a vez de se manifestarem aqueles que pedem oimpeachment (saída por votação no Congresso Nacional) de Dilma e o fim da corrupção, cujos escândalos têm abalado o país de alto a baixo no último ano. Os dados estavam lançados e só restava aguardar os resultados. Só que, como sempre acontece, a realidade era mais complexa e as coisas não eram bem assim.
Defesa envergonhada do governo
Por um lado, a manifestação de dia 13 era de defesa de Dilma, mas uma defesa envergonhada. Foi convocada pela Central Única dos Trabalhadores, pelo Movimento dos Sem Terra e pela União Nacional dos Estudantes, entre outras entidades, e tinha como primeiro ponto “lutar contra medidas do ajuste fiscal que prejudicam a classe trabalhadora”. Ora essas medidas foram decretadas pelo governo Dilma, que mal assumiu começou a aplicar o programa do seu adversário. A convocatória incluía também a defesa da Petrobras, que está a ser ameaçada pela roubalheira praticada por administradores nomeados pelos governos do PT. Só no fim da convocatória aparecia a frase "Democracia pressupõe [...] respeito às decisões do povo, em especial as dos resultados eleitorais", referindo-se aos que defendem oimpeachment da presidente. Com uma convocatória assim contraditória (contra as medidas do governo e em defesa do mesmo governo), era de esperar que não empolgasse muita gente. O próprio governo ter-se-á apercebido disso e pedido à CUT para cancelar as manifestações. Mas era tarde demais e a central sindical não quis recuar.
PSDB cauteloso
Por outro lado, o PSDB, o principal partido da oposição cujo candidato, Aécio Neves, perdeu por muito pouco as eleições, manteve uma atitude cuidadosa em relação às manifestações de dia 15, impulsionadas desde o início por setores à sua direita. O impeachment de Dilma, reivindicado pelos organizadores e levado ao Congresso pelo deputado e ex-polícia Jair Bolsonnaro, só teria sentido se houvesse comprovação material da implicação da presidente em casos concretos de corrupção – o que não ocorre – e teria sempre de passar por votação parlamentar, como foi o caso de Fernando Collor de Mello. Algo que não parece viável ao partido que lidera a oposição. Pior ainda, em caso de impeachment assumiria o vice-presidente, Michel Temer, e o PMDB passaria a ter as rédeas do governo – e não o PSDB.
Por outro lado, o governo está a aplicar a política que o PSDB defendeu na campanha eleitoral, o chamado ajuste fiscal, algo muito parecido com a austeridade na Europa. Assim, as manifestações de dia 15 eram vistas pelo PSDB como uma forma de desgastar o governo com a bandeira da corrupção, preparando uma futura e retumbante vitória eleitoral futura.
Finalmente, a esquerda socialista, o PSOL, o PSTU e o PCB, recusaram-se a aceitar a lógica da polarização 13-15 e anunciaram não participar em nenhuma das duas manifestações. A de dia 13, devido ao seu evidente caráter de defesa de um governo que mal assumiu já aplicou medidas contrárias ao seu programa e que têm como alvo os trabalhadores. A de dia 15 pela sua condução de direita, e por não concordarem com o impeachment de uma presidente recém-eleita e sem provas seja do que for.
PT perdeu a hegemonia das ruas
Foi com este quadro que chegou a sexta-feira, dia da primeira manifestação, que entretanto já mudara de eixo – passara da crítica às medidas de ajuste fiscal para a defesa aberta do governo, acusando a oposição de golpismo.
Já se sabia que o PT perdera a hegemonia das ruas, que manteve nas últimas décadas. Mas não se esperaria talvez um resultado tão fraco. A única manifestação de boa dimensão foi a de S.Paulo, que teve, segundo o Instituto DataFolha, 41 mil pessoas (100 mil segundo os organizadores), mas aproveitando a realização de uma assembleia de professores do estado convocada para votar a greve da categoria. Após essa votação, a maior parte dos professores retirou-se, deixando claro que não apoiavam a manifestação pró-Dilma. Noutras cidades, a participação foi, dadas as circunstâncias, minúscula: no Rio de Janeiro foram à rua mil pessoas, o mesmo em Brasília, em Fortaleza 500.
15 esmaga 13
Já no dia 15, ficou claro que o desgaste destes primeiros dois meses de governo Dilma foi enorme com as medidas anunciadas e a explosão do caso de corrupção na Petrobrás.
Os protestos foram esmagadoramente superiores em relação ao dia 13. Aliás, a jornada pró-Dilma já foi esquecida.
Em São Paulo foram à rua, segundo o mesmo DataFolha, 210 mil pessoas, a maior manifestação na capital desde as “Diretas Já” de 1984, superior ao protesto de junho de 2013. Mesmo que o instituto tenha exagerado um pouco (o DataFolha é propriedade da Folha de S.Paulo, jornal da família Frias que faz oposição a Dilma), não há dúvida de que foi uma enorme manifestação. Aliás, falando de exagero, a Polícia Militar do Estado (que responde ao governador Alckmin, do PSDB), disse que estava 1 milhão de pessoas na avenida Paulista, número que foi reproduzido pela imprensa internacional. Não estava. Para isso seria necessário que toda a avenida e ruas adjacentes estivesse repleta de pessoas com uma densidade de 7 por metro quadrado, ou seja, uma densidade semelhante à de uma carruagem de Metro atafulhada de gente.
Segundo as contas da Folha de S. Paulo, os protestos de domingo reuniram quase 1 milhão de pessoas nos 26 Estados do país e no Distrito Federal, ocorrendo em pelo menos 152 municípios brasileiros –incluindo todas as capitais exceto Palmas, do estado do Tocantins. Nos estados em que Dilma venceu as eleições de 2014, como Minas Gerais, Salvador e Pernambuco, também houve protestos com milhares de pessoas.
Muito ainda se irá falar destas manifestações, da sua composição de classe e do que levou essa massa de gente às ruas. Mas parece claro, para já, que este dia 15 é um marco da história recente do Brasil, o dia em que a direita mostrou que tem poder de convocação e que o PT chegou ao ponto mais alto de desgaste depois de mais de 12 anos no governo. Apesar de o desvio de fundos da empresa estatal ter beneficiado, pelo que se sabe até agora, políticos do PT, PMDB, PP, PSB, PSDB e PTB, o partido de Dilma é aquele que ficou com a imagem mais colada à corrupção. E o que levou as pessoas à rua foi o sentimento de que é preciso pôr termo à corrupção, ainda mais quando se anunciam cortes e sacrifícios para o povo.
Golpistas minoritários
Setores minoritários de algumas manifestações pediam uma intervenção militar para derrubar o governo. Mas o deputado Jair Bolsonaro, um dos defensores abertos do golpe, foi impedido de falar na manifestação do Rio de Janeiro, e uma segunda marcha convocada explicitamente para pedir um golpe militar, naquela cidade, teve apenas entre 500 e 2000 pessoas.
O candidato à Presidência derrotado por Dilma no segundo turno, Aécio Neves, não foi à rua e gravou um vídeo no seu apartamento no Rio de Janeiro. Disse que o 15 de março vai ficar lembrado como o "dia da democracia" no Brasil e pediu que a população não se "disperse".
Panelaço
No final das manifestações, os ministros Miguel Rossetto (secretário-geral da Presidência) e José Eduardo Cardoso (Justiça) foram à TV dar uma conferência de imprensa. Nesse momento começou um “panelaço” (bater de panelas) simultaneamente em diversas cidades.
Miguel Rossetto reconheceu que as medidas de cortes de gastos decretadas pelo governo, que ele definiu como “pôr as contas em ordem” (um termo muito familiar aos portugueses), são necessárias para o país voltar a crescer, mas reconheceu que podem ter irritado muita gente. Cardoso defendeu uma sempre muito falada reforma política, um pacote contra a corrupção e deu ênfase à necessidade de pôr fim ao financiamento empresarial às campanhas políticas, que definiu como a fonte de toda a corrupção.
Mesmo os comentadores mais simpáticos ao governo ouvidos na noite de domingo consideraram esta resposta “mais do mesmo”, sem nada adiantar de novo. Na manhã desta segunda-feira, os jornais diziam que Dilma Rousseff estaria a preparar uma remodelação ministerial, num governo que tem pouco mais de dois meses de existência.

sábado, março 14, 2015

Chomsky: A invasão do Iraque está na origem de grupos como o Estado Islâmico

Nesta entrevista ao Jacobin, Noam Chomsky explica as raízes do EI e por que os Estados Unidos e os seus aliados são responsáveis pelo surgimento do grupo. Em particular, argumenta que a invasão do Iraque de 2003 provocou as divisões sectárias que provocaram a desestabilização da sociedade iraquiana. O resultado foi um clima onde os radicais apoiados pelos sauditas prosperaram. Entrevista de David Barsamian.


Publicado originalmente em: http://www.esquerda.net/artigo/chomsky-invasao-do-iraque-esta-na-origem-de-grupos-como-o-estado-islamico/36183

O Médio Oriente está em chamas, da Líbia ao Iraque. Há novos grupos jihadistas. As atenções focam-se no Estado Islâmico. Que pensa deste grupo e das suas origens?
Há uma entrevista interessante a Graham Fuller, publicada há dias. Trata-se de um ex-agente da CIA, um dos principais analistas do Médio Oriente. O título é “Os Estados Unidos criaram o Estado Islâmico”. Esta é uma das teorias da conspiração, das milhares que há no Médio Oriente.
Mas esta vem de outra fonte: do coração doestablishment dos EUA. Fuller apressa-se a esclarecer que não quer dizer que os EUA decidiram dar existência ao EI e depois financiá-lo. O que ele sustenta – e eu acho uma opinião correta – é que os EUA criaram o ambiente do qual nasceu e se desenvolveu o EI. Em parte, a abordagem foi o padrão martelada: esmaga-se aquilo de que não se gosta.
Em 2003, o Reino Unido e os EUA invadiram o Iraque, um grande crime. Ainda esta noite, o Parlamento britânico concedeu ao governo a autoridade para bombardear o Iraque de novo. A invasão foi devastadora. O Iraque já tinha sido virtualmente destruído, em primeiro lugar pela guerra de dez anos contra o Irão, na qual, diga-se de passagem, o Iraque foi apoiado pelos EUA; e logo em seguida, pela década de sanções económicas.
Estas foram descritas como “genocidas” pelos respeitados diplomatas internacionais que as administraram, e ambos se demitiram em protesto. As sanções devastaram a sociedade civil, reforçaram o ditador, forçando a população a depender dele para sobreviver. Esse é provavelmente o motivo de não ter seguido o mesmo caminho de todo um grupo de ditadores que foram derrubados.
A invasão  do Iraque é comparada por muitos iraquianos à invasão mongol ocorrida mil anos antes.
Finalmente, os EUA decidiram atacar o país em 2003. O  ataque é comparado por muitos iraquianos à invasão mongol ocorrida mil anos antes.Terrivelmente destrutiva. Centenas de milhares de pessoas mortas, milhões de refugiados, milhões de outras pessoas deslocadas, destruição de riquezas arqueológicas do país dos tempos da Suméria.
Um dos efeitos da invasão foi imediatamente instituir divisões sectárias. Parte do fulgor da força de invasão e do seu diretor civil, Paul Bremer, foi separar as seitas, sunitas, xiitas, curdos e provocar os conflitos entre elas. Num par de anos, havia um enorme, brutal conflito sectário incitado pela invasão.
Para comprovar isto basta olhar para Bagdade. Se virmos um mapa de, digamos, 2002, trata-se de uma cidade misturada: sunitas e xiitas vivem nos mesmos bairros, por vezes nem se sabe quem é sunita ou xiita. É como saber se os seus amigos são de um grupo protestante ou de outro. Havia diferenças, mas não hostilidade.
De facto, durante alguns anos ambos os lados diziam: nunca haverá conflitos sunitas-xiitas. Estamos demasiado misturados na natureza das nossas vidas. Mas em 2006 já havia uma guerra enraivecida. Esse conflito espalhou-se a toda a região. Hoje, toda ela está dividida pelos conflitos sunitas-xiitas.
A dinâmica natural de um conflito como esse é que os elementos mais extremistas começam a ser predominantes. Tinham raízes. As raízes vêm do maior aliado dos EUA, a Arábia Saudita, que tem sido o principal aliado dos EUA na região desde que Washington se envolveu seriamente, de facto desde a fundação do estado saudita. É uma espécie de ditadura familiar. O motivo é ter uma quantidade enorme de petróleo.
O Reino Unido, antes dos EUA, preferia habitualmente o islamismo radical ao nacionalismo laico. E quando os EUA assumiram o seu papel, na essência seguiram o mesmo padrão. O islamismo radical tem o centro na Arábia Saudita. É o mais extremista, radical estado islâmico do mundo. Faz o Irão parecer um país tolerante e moderno por comparação e, evidentemente, as partes laicas do Médio Oriente árabe ainda mais.
Não só é orientado por uma versão extremista do Islão, a versão salafista wahabista, como também é um estado missionário. Usa os seus enormes recursos do petróleo para promulgar estas doutrinas por toda a região. Cria escolas, mesquitas, clérigos por toda a parte, do Paquistão ao Norte de África.
A doutrina abraçada pelo Estado Islâmico é uma versão extremista do extremismo saudita. 
A doutrina abraçada pelo Estado Islâmico é uma versão extremista do extremismo saudita. Cresceu ideologicamente da mais extremista forma do Islão, a versão saudita, e os conflitos que foram engendrados pelo martelo dos EUA que esmagou o Iraque espalhou-se agora para todo o lado. É o que Fuller quer dizer.
A Arábia Saudita não só fornece o núcleo ideológico que levou ao extemismo radical do EI, como também o financia. Não o governo saudita, mas os ricos sauditas e kuwaitianos e outros dão fundos e apoio ideológico a estes grupos jihadistas que florescem por todo o lado. O ataque à região levado a cabo por britânicos e os EUA é a fonte onde tudo isto tem origem. Foi o que Fuller quis dizer ao afirmar que os EUA criaram o EI.
Pode-se ter a certeza de que à medida que o conflito se desenvolva, eles vão ficar mais extremistas. Os mais brutais, mais duros grupos vão ganhar predominância. É o que acontece quando a violência se torna no meio de interação. É quase automático. Isto é assim tanto nos bairros quanto nos assuntos internacionais. As dinâmicas são perfeitamente evidentes. É o que está a acontecer. É de onde vem o EI. Se conseguirem destruir o EI, terão de lidar com algo mais extremista.
E os média são obedientes. No discurso de 10 de setembro, Obama citou dois países como histórias de sucesso da estratégia de contra-insurgência dos EUA. Que países são esses? Somália e Iémene. Toda a gente devia estar de queixo caído, mas no dia seguinte o silêncio era total, não havia comentários sobre isto.
O caso da Somália é particularmente horrendo. O Iémene é mau demais. A Somália é um país extremamente pobre. Não vou falar da história toda. Mas um dos grandes sucessos da política de contraterror da administração Bush foi que conseguiram fechar uma instituição de caridade, a Barakat, que abastecia o terrorismo na Somália. Grande excitação na imprensa. Grande triunfo.
Uns meses depois, os factos começaram a ganhar a luz do dia. A instituição de caridade não tinha absolutamente nada a ver com o terrorismo na Somália. Tinha a ver sim com a banca, o comércio, os hospitais. Mantinha de certa forma viva a economia somali, profundamente empobrecida e abalada. Ao fechar a instituição, a administração Bush acabou com isto. Foi a contribuição para a contra-insurgência. Foram-lhe dedicadas umas poucas linhas, que podem ser lidas em livros sobre finanças internacionais. É o que foi feito à Somália.
Houve um momento em que os chamados Tribunais Islâmicos, uma organização islâmica, tinha conseguido uma espécie de paz na Somália. Não era um regime bonito, mas pelo menos era pacífico e o povo estava mais ou menos a aceitá-lo. Os EUA não o toleraram, e apoiaram uma invasão etíope para destruí-lo e fazer toda a região numa enorme confusão. Grande sucesso.
O Iémene tem também a sua história de terror.
Esta é a tradução de uma parte da entrevista publicada no site informativo Jacobin.
Traduzido por Luis Leiria para o Esquerda.net


quinta-feira, março 12, 2015

Cabo Darciolo: A crônica do fanfarrão e o oportunismo.

Recentemente, o deputado federal Cabo Daciolo, foi a tribuna da Câmara falar em propor uma PEC para mudar o Art. 1 da Constituição Federal. A redação seria para colocar que o poder emana de deus e exercido pelo povo, ou algo do tipo.  Óbvio que isso causou um rebuliço, no PSOL e fora dele.
Dentro do PSOL o constrangimento atingiu a bancada como um todo, parte significativa de sua militância, que reagiu, uma parte com vergonha a outra raivosa. A parte com vergonha, inclui-se a bancada parlamentar federal, que teve que soltar uma nota desistindo da “PEC do Poder de Deus”.  
Além de total falta de bom senso do deputado Daciolo, a inutilidade política e jurídica da alteração chega a beira o cômico.  É inútil juridicamente pois conflitaria com norma constitucional do Estado Laico e do respeito a liberdade religiosa e de crença, certamente, a tal PEC iria parar na Suprema Corte (STF) para o controle de constitucionalidade.  Politicamente, a PEC significaria um retrocesso a liberdade de crença, o que seria uma afronta ao programa e a militância partidária.  Sem dúvida, o papel da PEC seria vergonhoso, para o PSOL, e para o deputado. Cabo Daciolo, é um fanfarrão, para ele, política se faz na igreja, e religião se faz no Parlamento.
Daciolo é um reacionário? Recentemente, a Carta Capital,escreveu um artigo para discutir essa questão apresentou elementos importantes de contradição do militar. Daciolo teve mais de 49 mil votos no RJ, e o mais importante: dirigiu a maior greve de militares, inclusive alastrou-se para outros estados. E esse aspecto não deve ser esquecido. No entanto, um dirigente não vive de história, vive de ações e políticas práticas.
Pior para Daciolo. Haja vista que as posições apontadas entre contradição do deputado com o PSOL, pode gerar a perda do mandato, já que se elegeu com os votos do partido e visivelmente quebra com a disciplina e programa do partido, mas para isso ser verdade, é preciso esperar um pouco mais.
Agora o problema é a crítica feita pelo PSTU pelo PT/PCdoB. Do ponto de vista do governismo a crítica política soa muito mais como hipocrisia e como a mesma tentativa que a pós-modernidade traz: “não existe mais direita e esquerda”. O PSTU, bem, esse aí é total falta do que fazer. Como não dirige nada, e não influencia nada, serve somente para  a disputa de militantes, tirar um ou dois, militantes do PSOL é “o socialismo cresce”. Assim, tanto o governismo como o esquerdismo do PSTU é a mesma coisa, no resultado final. Um oportunismo de um poço sem fundo.


Assim temos um ensaio de um fanfarrão e dois oportunistas. Parece que vai ser uma dança monótona  e patética. 

sábado, fevereiro 21, 2015

Uma retificação necessária!

Em respeito ao comentário no texto sobre "impressionismo" recém publicado nesse blog, é importante retificarmos o texto para fazer justiça. 
O texto não se refere as organizações de orientação morenista, como LIT ou UIT, mas apenas, e tão somente ao pensamento político de alguns de seus militantes. 
Acontece que em geral a linha dessas organizações é a formação de seitas, onde só há organizações equivocadas, exceto as suas próprias. 
Mas, para fazer justiça é necessário que se diga: NEM LIT, NEM UIT TEM, ATÉ O MOMENTO,   UMA LINHA BASEADA NO IMPRESSIONISMO.