terça-feira, junho 23, 2015

Redução da menoridade penal e a hipocrisia jurídica dos fariseus.


Em tempos em que o Congresso avança na PEC do Estelionato Eleitoral (PEC 171, também chamada de PEC redução da maioridade penal), alguns fariseus do mundo jurídico alardeiam-se em defender a PEC do ponto de vista jurídico. Para os fariseus o direito é um emaranhado de palavras, organizados em artigos, sem lógica e sem sentido, é a disciplina da vida pública e privada oriundo de algum lugar situado entre Nárnia e a Terra Média. Em minha opinião não é bem assim que as coisas andam. O direito tem uma lógica interna e corresponde aos interesses (ou disputa de interesses) frente a uma conjuntura econômica e social.
Nesse diapasão ainda a NORMA jurídica só é norma porque reflete uma lógica maior, um correspondente, que nem sempre se consegue, de harmonia com as demais normas e princípios gerais do direito. E nesse esboço da lógica jurídica que passamos a criticar os fariseus do direito.
O conceito de imputabilidade penal é deveras complexo, pois não é entendido com uma simples abstração jurídica. O Art. 26 do Código Penal diz: “Art. 26 - É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.” Assim podemos conceituar a imputabilidade penal com a capacidade completa de compreensão e prática do ato ilícito, sendo, portanto o elemento essencial do conceito “entender e determinar-se de acordo com esse entendimento”. Logo, o debate sobre o “entendimento” e a “determinação de acordo com esse entendimento” é o núcleo dos conceitos, não só da imputabilidade, como também da capacidade civil.
Argumenta, acertadamente até certo ponto, os fariseus defensores da redução da maioridade penal, que a capacidade civil não se comunica com a imputabilidade penal, que por isso o adolescente pode ser imputado de sua culpabilidade na prática criminosa, mas não teria capacidade civil plena na realização de negócio jurídico. Em resumo, estaria apto para ir pra cadeia, mas não para assinar um contrato de compra e venda, por exemplo.
Reduzir a idade da imputabilidade é o mesmo que dizer: Fulano praticou crime e deve responder como adulto completamente consciente de seus atos. Ora, mas o processo de discernimento é consciência não se dá de maneira dividida, como pretendem os fariseus. Adolescente para o consumo, adultos para o crime. O direito não admite esse tipo de oportunismo. E não adianta falar do voto, pois o voto é faculdade do menor de 18, e obrigação para os maiores.
Assim, a redução da maioridade penal pode, e seria lógico se o fizesse, uma redução da condição de adolescente. Assim seria adolescente o maior de 14 de 16 e o maior de 16, caso a proposta seja aprovada, deve ser tomado como adulto.
Por quê? Ora, se a punibilidade Estatal, a pena privativa de liberdade, pode ser imposta ao menor de 18, pois ele é, repito, completamente consciente do ato e de determinação para sua prática, como pode o mesmo Estado que pune como adulto proteger como adolescente?
Corrobora com nosso entendimento ANDRES GARCIA GONZALES, que por ocasião debatia o reflexo da redução da maioridade civil, com o novo Código Civil de 2002, em substituição do de 1916:
Dos ensinamentos de Eugênio Raúl Zaffaroni e José Henrique Pierangeli podemos extrair que “as normas não vivem isoladas e não podem ignorar-se mutuamente, o que exige respeito à unidade sistêmica do ordenamento jurídico”, e ainda mais especificamente sobre o assunto, como afirma José Henrique Rodrigues Torres, “o Direito Penal não é uma ilha isolada no sistema jurídico, o que exige a sua interpretação e aplicação com observância dos preceitos e institutos dos demais ramos do Direito”
Com isto podemos concluir que mesmo a legislação penal possuindo fundamentos e princípios próprios, deve ser alcançada pelos reflexos da nova legislação civil nos institutos que forem “ôntica e ontologicamente idênticos", segundo uma interpretação histórico-evolutiva, pois a lei é mais inteligente que o legislador[1]
Por isso, há sim uma justa e louvável preocupação com os reflexos da redução da imputabilidade penal visto que o Direito não é único e não um simples emaranhado de artigos, parágrafos, incisos, alíneas.
Torcemos que não haja essa nefasta redução, pois as consequências podem ser terríveis a toda a juventude, principalmente negra e pobre, por consequência a sociedade brasileira.




[1] GONZALEZ, Andres Garcia. A nova maioridade civil e seus reflexos na órbita penal e processual penal. In:Âmbito Jurídico, Rio Grande, VIII, n. 22, ago 2005. Disponível em: <http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=406>. Acesso em jun 2015.

sexta-feira, maio 08, 2015

Por que os governos do PSDB não gostam dos professores?

Duas greves estaduais de professores ocorrem no Brasil. No Pará e no Paraná. A situação em comum entre elas é o governo do PSDB. No Paraná, a violência policial ganhou destaque após a atuação extremamente violenta do Estado. No Pará, a truculência policial ainda não ocorreu nas mesmas proporções do que no Paraná, mas ela acontece sistematicamente contra lideranças do movimento.
Beto Richa apresentou uma nota lamentando o ocorrido, dias após, e a demissão do secretário de segurança e do Comandante da Policia Militar. O centro está o direito dos professores. No Pará, ao piso, no Paraná a Aposentadoria.
No Pará, o governo do Estado busca, tirando vantagens de um lado, pagar o piso nacional do magistério. Os trabalhadores da educação do Pará reivindicam que o piso seja pago e as vantagens mantidas. Mas o governo do Estado não é capaz de assegurar isso. A crise fiscal do Pará é semelhante a do governo federal. Há uma série de ajustes ocorrendo no estado, em todas as áreas do executivo, para assegurar que o governo não ultrapasse os limites da lei de responsabilidade fiscal.
A estratégia do governo Jatene ainda se pauta na perspectiva da privatização da Saúde, que é um setor “caro” de responsabilidade do executivo. Essa privatização através das organizações sociais tem um limite imposto pelas próprias OSs: o limite do lucro, ou como elas gostam de chamar do superávit. O que significa que tratamentos caros ainda ficaram às custas do estado. Além do que, a contratação das OSs, juntamente com a liberação desregulada da terceirização pelo PL 4330, os salários dos trabalhadores da saúde serão ainda mais baixos. Isso acontece as barbas do SINDSAUDE – PA, que pela inércia é um importante aliado do Governo Jatene, mesmo tendo suas lideranças ligadas diretamente ao PT.
Beto Richa, no Paraná, utiliza uma tática mais parecida com o governo Federal. Uma Reforma na Previdência, organizada pelo PSDB no Paraná. Os ataques são profundos, principalmente no setor da educação. A repressão policial foi a resposta imediata a mobilização. Essa mobilização contra a reforma da previdência, fora precedida por outras mobilizações.
Do Norte ao Sul os governos do PSDB têm a educação como sua inimiga, e os professores como as vítimas preferenciais, seja no salário ou nas aposentadorias. No entanto, há dentro da guerra de desinformação as crises do PSDB são sempre abafadas pela mídia, cabe a militância da esquerda brasileira, aos revolucionários e socialistas brasileiros reconstruir um programa e uma alternativa para o Brasil, um projeto anticapitalista e socialista. Falo da reconstrução da esquerda brasileira pois há um profundo desgaste dela, graças ao PT – PCdoB, que passaram para o lado do PMDB, para um projeto oportunista e de governabilidade burguesa.
Os desafios daqueles que defendem que o Estado deve servir para garantir serviços públicos de qualidade com a finalidade de assegurar ao povo e ao contribuinte retorno de seus impostos, são agora basicamente: 1. lutar contra a precarização das relações de trabalho via terceirização, para assegurar trabalho de qualidade; 2. Combater as medidas de ajuste fiscal da Medidas Provisórias 665 e 664.  3. Combater a corrupção para assegurar o retorno dos impostos a população; 4. Construir uma alternativa de poder, que passa pela organização de uma frente de luta política e sindical.


domingo, abril 12, 2015

Dia 15/04 ato do trabalhador em defesa do trabalhador.

Que o Congresso Nacional da atual legislatura era um congresso extremamente reacionário já não era novidade. As legendas de aluguel da direita ganharam espaço, houve uma significativa ampliação da “bancada da bala” e “evangélica”, redução dos setores governistas que pontualmente tinham posições progressistas, em questões, principalmente ligadas a direitos humanos.
No entanto, as duas últimas semanas foram um acúmulo de derrotas. A redução da menoridade penal e a aprovação do PL 4330/04. A menoridade penal, PEC 171, é um verdadeiro estelionato eleitoral. Aproveitando a concepção vingativa de política e direito penal que o senso comum tem, a CCJ aprovou a admissibilidade da alteração constitucional. A PEC está sob estudo em uma comissão, que a maioria dos parlamentares é pela redução da menoridade penal e representantes da bancada da bala. Se aprovada a reducação da menoridade penal, além de não solucionar o problema da violência pública ainda trará ônus carcerário que serão suportados pelos estados, não pela União, além de que o Brasil rasgará, na prática, a Convenção Internacional sobre o Direitos das Crianças da ONU, da qual o Brasil é signatário. É um retrocesso histórico nos direitos das crianças e no Direito Penal.
Do outro lado o PL 4330, “regulamenta” as terceirizações. A CLT assegura que a terceirização só poderia ocorrer em situações que não envolvessem área fim da atividade. Os custos com os empregados da atividade fim deveriam ser suportados pelo empregador; essa é a lógica, pelo menos era. Com a aprovação do “projeto as terceirizações” ficaram liberadas as terceirizações da atividade fim, inclusive na Administração Pública. Isso significa que, se a Administração não quiser mais fazer concurso público, ela poderá suportar sua atividade somente com terceirizados, e não haveria nenhum problema. Segundo o presidente da FIESP a produção da indústria não será terceirizada, apenas seus serviços “especializados”. Ou seja, não se demitirá operários, só os engenheiros. Esse projeto vem para trazer imediatamente brusca redução salarial entre os setores especializados.
Assim, em poucas semanas, o Congresso Nacional impôs para o povo brasileiro trabalhador e pobre duas derrotas profundas, uma em sua segurança e outra em seus empregos. Isso posto, o movimento da direita para derrubar o PT e Dilma, perdeu força para a mobilização concreta, nem tanto quanto a menoridade, mais com relação ao emprego, sim. Fica cada vez mais claro que PSDB não é alternativa, é o momento de que disputa em torno de pautas concretas e cotidianas, a defesa do emprego e da juventude e da segurança.

Com isso façamos o dia 15 de abril um grande dia de paralização, com piquetes e mobilizações, e onde possível greves.

quinta-feira, abril 02, 2015

Menoridade Penal; (re) iniciando um debate antigo. (Parte 1)

Está aberto o debate sobre a redução da menoridade penal. A aprovação da PEC 171 pela CCJ, trouxe o debate aberto e franco para a sociedade civil brasileira. E as redes sociais, nos últimos dias opiniões contrarias e a favor se enfrentaram. Até o arremedo de jornalista Rachel Sheherazade  apresentou uma piada de muito mal gosto ao defender 10 pontos para ser a favor da redução da menoridade penal.
Os defensores da redução da menoridade penal apoiam-se nas seguintes teses: 1) A política penal é para punição e vingança por causa do crime cometido. 2) inspirados pela demora do processo penal, e pela lentidão do Judiciário Brasileiro, apontam que a "justiça" seria chegada a partir da punição precoce. 3) Os casos chocantes e bárbaros cometidos por adolescentes para justificar a punição de todos.


O direito e a política penal moderna não admite a vingança como estruturante da punibilidade do apenado. Ou seja, o apenado é uma vida, assim como a que ele, por exemplo, prejudicou. Não se trata de renegar uma vida pela brutalidade com que este tratou sua vitima. Mas a política e o direito penal tem como objetivo a correição do apenado, a "realocação" social por assim dizer. Além da reparação pecuniária da vítima ou de seus herdeiros. 


O processo penal é um processo lento, por assim dizer, inicia-se em uma fase administrativa para posteriormente tornar-se um processo judicial, propriamente dito. A busca do processo penal é a verdade de fato. Pois ao atacar um direito fundamental (direito a liberdade) e não apenas o patrimônio. O patrimônio enquanto direito é "menos importante" que a liberdade. Um dia preso, não volta, o patrimônio pode voltar. Até por isso que o processo penal deve ser mais cauteloso com a busca pela verdade, para não correr o risco de tirar a liberdade de um inocente. Boa parte do problema do judiciário brasileiro é o índice per capita de juízes, por exemplo, segundo o CNJ cada servidor do primeiro grau de jurisdição estadual é de 545 processos por servidor, em 1 ano. No segundo grau é de  230 por servidor. Estima-se que na Justiça Estadual cada juiz de primeiro grau teve 7.407 processos em 2013.

Os casos bárbaros apresentados como justificativas são explorados pela mídia sensacionalista para justificar a flexibilização, onde se discute seletivamente crimes hediondos e de grande comoção. Por exemplo, na lista apresentada pelo arremedo de jornalista não consta o estupro de vulnerável cometido pelo filho do dono da RBS, por exemplo.

Mas discute-se em torno desses casos os efeitos e o caso executado em si. Entretanto não se discute como prevenir? Discute-se a vingança, ai voltamos para para o inicio da discussão, sobre a finalidade do direito e da política penal.

segunda-feira, março 16, 2015

Brasil: manifestação convocada pela direita contra Dilma vence a disputa nas ruas

Protestos em pelo menos 152 municípios do país levaram centenas de milhares às ruas a pedir a saída do governo de Dilma Rousseff e o fim da corrupção. Mobilização ofuscou a jornada de dois dias antes, quando as manifestações pró-Dilma foram muito reduzidas.

Luís Leiria Publicado originalmente em http://www.esquerda.net/artigo/brasil-manifestacao-convocada-pela-direita-contra-dilma-vence-disputa-nas-ruas/36209
Manifestação na avenida Paulista. By Unknow (Agência Brasil) [CC BY 3.0 br (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/deed.en)], via Wikimedia Commons
Manifestação na avenida Paulista. By Unknow (Agência Brasil) [CC BY 3.0 br (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/deed.en)], via Wikimedia Commons
O Brasil passou a semana a discutir dois dias de manifestações: dia 13, os defensores da presidente recém-eleita Dilma Rousseff sairiam à rua. Dia 15, seria a vez de se manifestarem aqueles que pedem oimpeachment (saída por votação no Congresso Nacional) de Dilma e o fim da corrupção, cujos escândalos têm abalado o país de alto a baixo no último ano. Os dados estavam lançados e só restava aguardar os resultados. Só que, como sempre acontece, a realidade era mais complexa e as coisas não eram bem assim.
Defesa envergonhada do governo
Por um lado, a manifestação de dia 13 era de defesa de Dilma, mas uma defesa envergonhada. Foi convocada pela Central Única dos Trabalhadores, pelo Movimento dos Sem Terra e pela União Nacional dos Estudantes, entre outras entidades, e tinha como primeiro ponto “lutar contra medidas do ajuste fiscal que prejudicam a classe trabalhadora”. Ora essas medidas foram decretadas pelo governo Dilma, que mal assumiu começou a aplicar o programa do seu adversário. A convocatória incluía também a defesa da Petrobras, que está a ser ameaçada pela roubalheira praticada por administradores nomeados pelos governos do PT. Só no fim da convocatória aparecia a frase "Democracia pressupõe [...] respeito às decisões do povo, em especial as dos resultados eleitorais", referindo-se aos que defendem oimpeachment da presidente. Com uma convocatória assim contraditória (contra as medidas do governo e em defesa do mesmo governo), era de esperar que não empolgasse muita gente. O próprio governo ter-se-á apercebido disso e pedido à CUT para cancelar as manifestações. Mas era tarde demais e a central sindical não quis recuar.
PSDB cauteloso
Por outro lado, o PSDB, o principal partido da oposição cujo candidato, Aécio Neves, perdeu por muito pouco as eleições, manteve uma atitude cuidadosa em relação às manifestações de dia 15, impulsionadas desde o início por setores à sua direita. O impeachment de Dilma, reivindicado pelos organizadores e levado ao Congresso pelo deputado e ex-polícia Jair Bolsonnaro, só teria sentido se houvesse comprovação material da implicação da presidente em casos concretos de corrupção – o que não ocorre – e teria sempre de passar por votação parlamentar, como foi o caso de Fernando Collor de Mello. Algo que não parece viável ao partido que lidera a oposição. Pior ainda, em caso de impeachment assumiria o vice-presidente, Michel Temer, e o PMDB passaria a ter as rédeas do governo – e não o PSDB.
Por outro lado, o governo está a aplicar a política que o PSDB defendeu na campanha eleitoral, o chamado ajuste fiscal, algo muito parecido com a austeridade na Europa. Assim, as manifestações de dia 15 eram vistas pelo PSDB como uma forma de desgastar o governo com a bandeira da corrupção, preparando uma futura e retumbante vitória eleitoral futura.
Finalmente, a esquerda socialista, o PSOL, o PSTU e o PCB, recusaram-se a aceitar a lógica da polarização 13-15 e anunciaram não participar em nenhuma das duas manifestações. A de dia 13, devido ao seu evidente caráter de defesa de um governo que mal assumiu já aplicou medidas contrárias ao seu programa e que têm como alvo os trabalhadores. A de dia 15 pela sua condução de direita, e por não concordarem com o impeachment de uma presidente recém-eleita e sem provas seja do que for.
PT perdeu a hegemonia das ruas
Foi com este quadro que chegou a sexta-feira, dia da primeira manifestação, que entretanto já mudara de eixo – passara da crítica às medidas de ajuste fiscal para a defesa aberta do governo, acusando a oposição de golpismo.
Já se sabia que o PT perdera a hegemonia das ruas, que manteve nas últimas décadas. Mas não se esperaria talvez um resultado tão fraco. A única manifestação de boa dimensão foi a de S.Paulo, que teve, segundo o Instituto DataFolha, 41 mil pessoas (100 mil segundo os organizadores), mas aproveitando a realização de uma assembleia de professores do estado convocada para votar a greve da categoria. Após essa votação, a maior parte dos professores retirou-se, deixando claro que não apoiavam a manifestação pró-Dilma. Noutras cidades, a participação foi, dadas as circunstâncias, minúscula: no Rio de Janeiro foram à rua mil pessoas, o mesmo em Brasília, em Fortaleza 500.
15 esmaga 13
Já no dia 15, ficou claro que o desgaste destes primeiros dois meses de governo Dilma foi enorme com as medidas anunciadas e a explosão do caso de corrupção na Petrobrás.
Os protestos foram esmagadoramente superiores em relação ao dia 13. Aliás, a jornada pró-Dilma já foi esquecida.
Em São Paulo foram à rua, segundo o mesmo DataFolha, 210 mil pessoas, a maior manifestação na capital desde as “Diretas Já” de 1984, superior ao protesto de junho de 2013. Mesmo que o instituto tenha exagerado um pouco (o DataFolha é propriedade da Folha de S.Paulo, jornal da família Frias que faz oposição a Dilma), não há dúvida de que foi uma enorme manifestação. Aliás, falando de exagero, a Polícia Militar do Estado (que responde ao governador Alckmin, do PSDB), disse que estava 1 milhão de pessoas na avenida Paulista, número que foi reproduzido pela imprensa internacional. Não estava. Para isso seria necessário que toda a avenida e ruas adjacentes estivesse repleta de pessoas com uma densidade de 7 por metro quadrado, ou seja, uma densidade semelhante à de uma carruagem de Metro atafulhada de gente.
Segundo as contas da Folha de S. Paulo, os protestos de domingo reuniram quase 1 milhão de pessoas nos 26 Estados do país e no Distrito Federal, ocorrendo em pelo menos 152 municípios brasileiros –incluindo todas as capitais exceto Palmas, do estado do Tocantins. Nos estados em que Dilma venceu as eleições de 2014, como Minas Gerais, Salvador e Pernambuco, também houve protestos com milhares de pessoas.
Muito ainda se irá falar destas manifestações, da sua composição de classe e do que levou essa massa de gente às ruas. Mas parece claro, para já, que este dia 15 é um marco da história recente do Brasil, o dia em que a direita mostrou que tem poder de convocação e que o PT chegou ao ponto mais alto de desgaste depois de mais de 12 anos no governo. Apesar de o desvio de fundos da empresa estatal ter beneficiado, pelo que se sabe até agora, políticos do PT, PMDB, PP, PSB, PSDB e PTB, o partido de Dilma é aquele que ficou com a imagem mais colada à corrupção. E o que levou as pessoas à rua foi o sentimento de que é preciso pôr termo à corrupção, ainda mais quando se anunciam cortes e sacrifícios para o povo.
Golpistas minoritários
Setores minoritários de algumas manifestações pediam uma intervenção militar para derrubar o governo. Mas o deputado Jair Bolsonaro, um dos defensores abertos do golpe, foi impedido de falar na manifestação do Rio de Janeiro, e uma segunda marcha convocada explicitamente para pedir um golpe militar, naquela cidade, teve apenas entre 500 e 2000 pessoas.
O candidato à Presidência derrotado por Dilma no segundo turno, Aécio Neves, não foi à rua e gravou um vídeo no seu apartamento no Rio de Janeiro. Disse que o 15 de março vai ficar lembrado como o "dia da democracia" no Brasil e pediu que a população não se "disperse".
Panelaço
No final das manifestações, os ministros Miguel Rossetto (secretário-geral da Presidência) e José Eduardo Cardoso (Justiça) foram à TV dar uma conferência de imprensa. Nesse momento começou um “panelaço” (bater de panelas) simultaneamente em diversas cidades.
Miguel Rossetto reconheceu que as medidas de cortes de gastos decretadas pelo governo, que ele definiu como “pôr as contas em ordem” (um termo muito familiar aos portugueses), são necessárias para o país voltar a crescer, mas reconheceu que podem ter irritado muita gente. Cardoso defendeu uma sempre muito falada reforma política, um pacote contra a corrupção e deu ênfase à necessidade de pôr fim ao financiamento empresarial às campanhas políticas, que definiu como a fonte de toda a corrupção.
Mesmo os comentadores mais simpáticos ao governo ouvidos na noite de domingo consideraram esta resposta “mais do mesmo”, sem nada adiantar de novo. Na manhã desta segunda-feira, os jornais diziam que Dilma Rousseff estaria a preparar uma remodelação ministerial, num governo que tem pouco mais de dois meses de existência.

sábado, março 14, 2015

Chomsky: A invasão do Iraque está na origem de grupos como o Estado Islâmico

Nesta entrevista ao Jacobin, Noam Chomsky explica as raízes do EI e por que os Estados Unidos e os seus aliados são responsáveis pelo surgimento do grupo. Em particular, argumenta que a invasão do Iraque de 2003 provocou as divisões sectárias que provocaram a desestabilização da sociedade iraquiana. O resultado foi um clima onde os radicais apoiados pelos sauditas prosperaram. Entrevista de David Barsamian.


Publicado originalmente em: http://www.esquerda.net/artigo/chomsky-invasao-do-iraque-esta-na-origem-de-grupos-como-o-estado-islamico/36183

O Médio Oriente está em chamas, da Líbia ao Iraque. Há novos grupos jihadistas. As atenções focam-se no Estado Islâmico. Que pensa deste grupo e das suas origens?
Há uma entrevista interessante a Graham Fuller, publicada há dias. Trata-se de um ex-agente da CIA, um dos principais analistas do Médio Oriente. O título é “Os Estados Unidos criaram o Estado Islâmico”. Esta é uma das teorias da conspiração, das milhares que há no Médio Oriente.
Mas esta vem de outra fonte: do coração doestablishment dos EUA. Fuller apressa-se a esclarecer que não quer dizer que os EUA decidiram dar existência ao EI e depois financiá-lo. O que ele sustenta – e eu acho uma opinião correta – é que os EUA criaram o ambiente do qual nasceu e se desenvolveu o EI. Em parte, a abordagem foi o padrão martelada: esmaga-se aquilo de que não se gosta.
Em 2003, o Reino Unido e os EUA invadiram o Iraque, um grande crime. Ainda esta noite, o Parlamento britânico concedeu ao governo a autoridade para bombardear o Iraque de novo. A invasão foi devastadora. O Iraque já tinha sido virtualmente destruído, em primeiro lugar pela guerra de dez anos contra o Irão, na qual, diga-se de passagem, o Iraque foi apoiado pelos EUA; e logo em seguida, pela década de sanções económicas.
Estas foram descritas como “genocidas” pelos respeitados diplomatas internacionais que as administraram, e ambos se demitiram em protesto. As sanções devastaram a sociedade civil, reforçaram o ditador, forçando a população a depender dele para sobreviver. Esse é provavelmente o motivo de não ter seguido o mesmo caminho de todo um grupo de ditadores que foram derrubados.
A invasão  do Iraque é comparada por muitos iraquianos à invasão mongol ocorrida mil anos antes.
Finalmente, os EUA decidiram atacar o país em 2003. O  ataque é comparado por muitos iraquianos à invasão mongol ocorrida mil anos antes.Terrivelmente destrutiva. Centenas de milhares de pessoas mortas, milhões de refugiados, milhões de outras pessoas deslocadas, destruição de riquezas arqueológicas do país dos tempos da Suméria.
Um dos efeitos da invasão foi imediatamente instituir divisões sectárias. Parte do fulgor da força de invasão e do seu diretor civil, Paul Bremer, foi separar as seitas, sunitas, xiitas, curdos e provocar os conflitos entre elas. Num par de anos, havia um enorme, brutal conflito sectário incitado pela invasão.
Para comprovar isto basta olhar para Bagdade. Se virmos um mapa de, digamos, 2002, trata-se de uma cidade misturada: sunitas e xiitas vivem nos mesmos bairros, por vezes nem se sabe quem é sunita ou xiita. É como saber se os seus amigos são de um grupo protestante ou de outro. Havia diferenças, mas não hostilidade.
De facto, durante alguns anos ambos os lados diziam: nunca haverá conflitos sunitas-xiitas. Estamos demasiado misturados na natureza das nossas vidas. Mas em 2006 já havia uma guerra enraivecida. Esse conflito espalhou-se a toda a região. Hoje, toda ela está dividida pelos conflitos sunitas-xiitas.
A dinâmica natural de um conflito como esse é que os elementos mais extremistas começam a ser predominantes. Tinham raízes. As raízes vêm do maior aliado dos EUA, a Arábia Saudita, que tem sido o principal aliado dos EUA na região desde que Washington se envolveu seriamente, de facto desde a fundação do estado saudita. É uma espécie de ditadura familiar. O motivo é ter uma quantidade enorme de petróleo.
O Reino Unido, antes dos EUA, preferia habitualmente o islamismo radical ao nacionalismo laico. E quando os EUA assumiram o seu papel, na essência seguiram o mesmo padrão. O islamismo radical tem o centro na Arábia Saudita. É o mais extremista, radical estado islâmico do mundo. Faz o Irão parecer um país tolerante e moderno por comparação e, evidentemente, as partes laicas do Médio Oriente árabe ainda mais.
Não só é orientado por uma versão extremista do Islão, a versão salafista wahabista, como também é um estado missionário. Usa os seus enormes recursos do petróleo para promulgar estas doutrinas por toda a região. Cria escolas, mesquitas, clérigos por toda a parte, do Paquistão ao Norte de África.
A doutrina abraçada pelo Estado Islâmico é uma versão extremista do extremismo saudita. 
A doutrina abraçada pelo Estado Islâmico é uma versão extremista do extremismo saudita. Cresceu ideologicamente da mais extremista forma do Islão, a versão saudita, e os conflitos que foram engendrados pelo martelo dos EUA que esmagou o Iraque espalhou-se agora para todo o lado. É o que Fuller quer dizer.
A Arábia Saudita não só fornece o núcleo ideológico que levou ao extemismo radical do EI, como também o financia. Não o governo saudita, mas os ricos sauditas e kuwaitianos e outros dão fundos e apoio ideológico a estes grupos jihadistas que florescem por todo o lado. O ataque à região levado a cabo por britânicos e os EUA é a fonte onde tudo isto tem origem. Foi o que Fuller quis dizer ao afirmar que os EUA criaram o EI.
Pode-se ter a certeza de que à medida que o conflito se desenvolva, eles vão ficar mais extremistas. Os mais brutais, mais duros grupos vão ganhar predominância. É o que acontece quando a violência se torna no meio de interação. É quase automático. Isto é assim tanto nos bairros quanto nos assuntos internacionais. As dinâmicas são perfeitamente evidentes. É o que está a acontecer. É de onde vem o EI. Se conseguirem destruir o EI, terão de lidar com algo mais extremista.
E os média são obedientes. No discurso de 10 de setembro, Obama citou dois países como histórias de sucesso da estratégia de contra-insurgência dos EUA. Que países são esses? Somália e Iémene. Toda a gente devia estar de queixo caído, mas no dia seguinte o silêncio era total, não havia comentários sobre isto.
O caso da Somália é particularmente horrendo. O Iémene é mau demais. A Somália é um país extremamente pobre. Não vou falar da história toda. Mas um dos grandes sucessos da política de contraterror da administração Bush foi que conseguiram fechar uma instituição de caridade, a Barakat, que abastecia o terrorismo na Somália. Grande excitação na imprensa. Grande triunfo.
Uns meses depois, os factos começaram a ganhar a luz do dia. A instituição de caridade não tinha absolutamente nada a ver com o terrorismo na Somália. Tinha a ver sim com a banca, o comércio, os hospitais. Mantinha de certa forma viva a economia somali, profundamente empobrecida e abalada. Ao fechar a instituição, a administração Bush acabou com isto. Foi a contribuição para a contra-insurgência. Foram-lhe dedicadas umas poucas linhas, que podem ser lidas em livros sobre finanças internacionais. É o que foi feito à Somália.
Houve um momento em que os chamados Tribunais Islâmicos, uma organização islâmica, tinha conseguido uma espécie de paz na Somália. Não era um regime bonito, mas pelo menos era pacífico e o povo estava mais ou menos a aceitá-lo. Os EUA não o toleraram, e apoiaram uma invasão etíope para destruí-lo e fazer toda a região numa enorme confusão. Grande sucesso.
O Iémene tem também a sua história de terror.
Esta é a tradução de uma parte da entrevista publicada no site informativo Jacobin.
Traduzido por Luis Leiria para o Esquerda.net